terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Luis Eduardo Matta e os Thrillers



O jovem escritor brasileiro Luis Eduardo Matta,publica dois livros de suspense -Ira Implacável (Nova razão Cultural) e 120 Horas (Edit.Planeta)-e firma-se no cenário dos thrillers,ações encadeadas e mais rápidas,com personagens fortes e marcantes, tramas ambientadas em vários lugares, bem descritos, quase crônicas de viagem.

Além de escrever bem, Luis Eduardo Matta sabe manter o fio de Ariadne:embora nos labirintos das entrelaçadas e diferentes histórias dos personagens que se entrelaçam ao protagonismo mais relevante de alguém, o autor caminha , vai e vem, retorna.Mas não se perde nos meandros do enredo, não deixa buraços, embora algumas interrogações sejam o sal, o tempero, a ponto de se esperar que ele escreva uma continuação das histórias:na verdade, são de tal forma interessantes, que passam a povoar nosso imaginário, ou se nos apresentam quais pessoas de vida real, de quem queremos saber ainda mais.O timing é perfeito.Flashbacks,pistas, movimento, nos fazem imaginar um filme sem nehum momento de tédio.

Nas páginas a seguir, comentarei esses romances e agora, comecemos com a entrevista,onde se pode melhor conhecer não apenas seu modus operandi, mas ainda, sua maneira de ser.
Cumprimentamos o brilhante autor.Quem não souber sua idade, por certo vai julgá-lo, no mínmo,um quarentão.

Clevane Pessoa de araújo Lopes
Diretora Regional ,em Belo Horizonte, MG, Br,do Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais (InBrasCi)


1) Ficha cadastral:

Nome: Luis Eduardo Matta

Idade: 33 anos

DN: 21 de novembro de 1974

Profissão: Escritor

Formação: Autodidata

Pais: Brasil

Lazer: Ler, fazer caminhadas, ir ao cinema, a exposições e eventos culturais.

2)Perguntas básicas:

a) A partir de quando e de que motivação você resolveu escrever 120 horas?

Tudo começou em meados de 1997. Eu havia finalizado o meu romance anterior, ‘Ira Implacável’ e numa noite, inadvertidamente, enquanto assistia a um filme que não me recordo qual era, fiquei pensando em como seria interessante escrever um livro, no qual houvesse uma personagem feminina ambígua. Uma mulher rica, fina, de forte personalidade, culta, elegante, já de certa idade e reverenciada nos melhores círculos da sociedade e que, por trás dessa fachada respeitável, exercesse atividades espúrias, ligadas ao submundo mais sórdido da máfia internacional. Foi a partir daí, da concepção desta personagem, Evelyn Wakim, que é uma das espinhas dorsais do livro, que nasceu e se desenvolveu toda a trama. ‘120 horas’ teve duas versões. A primeira foi escrita entre 1998 e 1999 e a segunda, entre 2002 e 2004.

b) O que diferencia um thriller de outros gêneros? Você prefere escrever thrillers?

Prefiro. É um tipo de ficção que sempre me atraiu muito, sobretudo quando acompanhado de um mistério, um enigma ou algo do tipo. O thriller é um gênero de entretenimento, cujo elemento principal, muito acima da linguagem e do aprofundamento de temas, itens caros à alta literatura, é a trama. Uma trama ágil, bem construída e amarrada, com elementos de suspense e tensão, é imprescindível para que um thriller seja bem sucedido. No meu caso específico, procuro, igualmente, criar uma galeria de personagens que se imponham e, com isso, alcancem os corações dos leitores e despertem seu interesse.

c) Para escrever, você precisa de ambiente, clima, inspiração, método, ou apenas se dispõe a desenvolver o enredo?

Preciso de tudo isso junto, e, felizmente, tenho conseguido. A solidão é imprescindível. Sou capaz de ficar um dia inteiro escrevendo, sempre sozinho e ouvindo música suave. Já a inspiração não é, ao menos para mim, aquela epifania romântica dos poetas e, sim, um momento onde as idéias estão em franco movimento e pedindo para serem postas para fora. Meus enredos são todos muito estruturados antes que o livro propriamente dito seja iniciado. Faço vários roteiros prévios, prevejo o final, a fim de arquitetar e costurar os mistérios e os conflitos ao longo da trama e componho detalhadamente os perfis dos personagens centrais a fim de incorporá-los no momento em que os coloco em ação no livro.

d) Já lhe aconteceu de um protagonista arrastar você para outro caminho antes não imaginado?

Já, mas foram poucas vezes. Na realidade, embora eu faça um planejamento minucioso da obra antes de começar a escrevê-la, muitas idéias vão surgindo enquanto escrevo e isso acaba alterando um pouco os rumos da trama. Não é que os personagens criem vida, mas as suas ações e pensamentos evoluem à medida que a história avança e isso acaba determinando o que irá acontecer dali em diante, embora existam limites. Digamos que o arcabouço da história permanece praticamente inalterado, mas o recheio sofre algumas mudanças.

e) Qual a sua relação com os personagens? Sente que os domina ou por vezes, sente-se dominado? A que atribui esse tipo de intercâmbio entre autor e personagens?

Pode parecer conversa de doido, mas eu tenho uma relação muito íntima com cada um dos meus personagens, porque eles são concebidos, sobretudo, a partir do meu convívio com pessoas reais. À medida que eu vou escrevendo um livro e mergulhando cada vez mais na atmosfera da trama, os personagens adquirem uma identidade e uma personalidade tão marcantes, que é como se eles existissem de verdade. Muitas vezes, ando na rua e avisto uma pessoa estranha que, fisicamente, se assemelha muito a um personagem meu e começo a imaginá-lo como sendo o meu personagem num momento trivial do seu cotidiano. Por outro lado, procuro sempre estabelecer um distanciamento entre mim e os personagens, a fim de não fazer deles porta-vozes da minha maneira de pensar ou de agir. Uma das coisas que eu sempre evitei foi tornar meus livros auto-referentes. Não simpatizo com alter egos e não acredito sinceramente que a minha vida e as minhas noções da realidade sejam interessantes para os outros, a ponto de pretender expô-las numa prosa de ficção.

f) Você se inspirou em alguma pessoa real, para algum protagonismo, especificamente em 120 horas?

Em muitas. Todos os personagens de ‘120 horas’ existem um pouco na vida real. Mesmo os mais estapafúrdios. Na realidade, não só as pessoas reais me inspiraram, como, também, algumas que eu conheci pela ficção e não me refiro somente à ficção literária. O cinema e a televisão também me inspiram bastante. O que eu posso afirmar com certeza é que um personagem meu nunca é a reprodução fiel de uma pessoa. Ele costuma ser uma soma de várias delas e, também de personagens de outros livros, filmes, telenovelas, seriados e tudo o mais.

g) Em geral, o autor é alguém que gosta de ler. É o seu caso? Em criança, gostava de que tipo de leitura? Já tinha uma queda por suspense?

Eu comecei a ler livros com regularidade a partir dos 9 ou 10 anos, sempre por lazer e comecei pela literatura policial. Até hoje, acredito que a ficção de mistério é o caminho mais simples e certeiro para atrair um jovem para a literatura. Comecei com livros policiais infanto-juvenis, como os do Ganymedes José e do João Carlos Marinho. Em seguida, passei à literatura policial adulta, de autores como Agatha Christie, Georges Simenon e Raymond Chandler e, somente muito mais tarde, já com meus 15 anos, é que naturalmente comecei a me interessar, também, pela grande literatura. Tudo aconteceu muito naturalmente. Sempre li por lazer e sem nenhuma pretensão de posar de intelectual por causa disso.

h) Você sente que tem a identidade de um escritor? Preeche documentos como "escritor"?

Eu encaro a atividade literária mais como um ofício do que como uma profissão. Considero-me, sim, um profissional da escrita. Desde os 18 anos preencho documentos como “escritor”. No início era gozado, porque as pessoas me olhavam meio torto. Daí eu passei a levar um exemplar do meu primeiro livro, que foi publicado em 1993, para provar que estava dizendo a verdade. Era engraçadíssimo ver as expressões perturbadas que as pessoas faziam. É bom salientar que eu era um jovem de 18 anos com cara e corpo de 15.

i) Na escola, algum professor reconheceu que você tinha estilo ou vocação? Algum o incentivou? E em sua família?

Tive uma ótima professora de literatura e português chamada Sônia, que me incentivava a escrever e que me indicou, fora da sala de aulas, livros que foram fundamentais na minha formação como leitor. Ela dizia sempre que ler era como assistir a um desenho animado na TV. Mas isso foi muito antes de eu escrever meu primeiro livro. Minha família sempre me apoiou, embora tenha havido alguns conflitos que se estenderam por anos a fio. Naquela época isso me afligia, mas hoje eu consigo compreender. Afinal, não é fácil numa família onde praticamente nunca houve artistas, de repente alguém resolver seguir a carreira de escritor.

j) A questão editorial no Brasil às vezes é um empecilho a que as pessoas publiquem seus escritos. Você experenciou alguma dificuldade maior ou recusa? Acredita que deu sorte ao tentar publicar? E com a editora Planeta, tem boas relações?

Tive e tenho muitas dificuldades. A carreira literária é um desafio permanente e o mercado editorial é de uma instabilidade inacreditável. Nós, escritores, precisamos estar sempre fazendo com que as coisas aconteçam, porque existe uma competição feroz, dezenas de lançamentos todos os meses e um espaço muito limitado para a divulgação e venda dos livros. Já tive livros meus recusados inúmeras vezes, por muitas editoras. Isso é normal. Não sei se tive sorte ao publicar. Foi, talvez, o resultado de muito esforço e persistência. As coisas comigo não costumam ser fáceis, nem rápidas, mas elas acabam acontecendo porque eu estou sempre correndo atrás. No caso da Planeta, meu relacionamento com a editora é muito bom. Tenho uma especial estima pela Débora Guterman e pelo Pascoal Soto, que são meus editores lá. Ambos são profissionais muito preparados, além de pessoas de uma delicadeza ímpar. Como iniciou há apenas cinco anos as suas atividades no Brasil, a Planeta não teve ainda tempo de mostrar todo o seu potencial, então é injusto compará-la às demais grandes editoras que estão no mercado há muitos anos. Firmar-se num terreno pedregoso e, eu diria até, minado como é o mercado editorial brasileiro, é uma missão muito complicada e exaustiva, mas me parece que a Planeta está, apesar de alguns percalços, avançando e, aos poucos, conquistando o seu espaço.

l) Você experimenta algum cansaço físico, somatização (tipo cefaléia, irritabilidade, insônia, quando está escrevendo), ou sente apenas bem estar e a excitação de estar em pleno processo criativo?

Eu me sinto muito bem, mas me canso também. Adoro escrever, mas o meu processo de escrita é muito complexo e multifacetado. Ele não inclui apenas a redação do livro, mas, também, uma pesquisa permanente sobre vários assuntos, a preparação da trama, a concepção dos personagens, dos ambientes... É uma jornada muito trabalhosa que me deixa cansado não só fisicamente como, sobretudo, mentalmente. Insônia eu tenho desde criança, mas ela se acentuou com o passar dos anos. São comuns as noites em que acordo para tomar nota de alguma idéia que surge de repente. O meu dia, para ser ideal deveria ter umas vinte e sete ou vinte e oito horas, porque eu preciso dormir de sete a oito horas para ter um sono plenamente reparador, e ficar acordado de dezenove a vinte horas para ter vontade de dormir. Esse é, imagino, um problema que vai me acompanhar pelo resto da vida.

m) Você reside em que cidade?O que mais gosta de fazer quando não está escrevendo?

Nasci e moro no Rio de Janeiro, que é uma cidade que eu adoro. Costumo dizer que o Rio representa para mim o mesmo que Jerusalém representa para os judeus. É a minha terra prometida, a minha cidade dourada, o único lugar onde me sinto verdadeiramente em casa... Uma das coisas de que mais gosto de fazer é sair pelas ruas da cidade sem rumo. Tomo um ônibus aleatoriamente, desço numa avenida qualquer, me embrenho pela intimidade dos bairros, descubro uma padaria, um botequim, uma livraria, um sebo, um café, uma vila de casas geminadas, um sobrado antigo com um detalhe arquitetônico qualquer... Conheço o Rio muito bem e a cada dia que saio pela cidade eu a redescubro de uma forma intensa, como se eu estivesse chegando aqui pela primeira vez. Em geral, quando não estou escrevendo, estou lendo ou andando pela cidade.

n) O que espera (em relação a resultados ou novos projetos) agora?

Eu sou um realista-otimista. Traduzindo: sou alguém que tem plena noção da realidade, mas que sempre acredita que as coisas podem melhorar. Ainda porque ser realista é ter em conta que a realidade está em permanente mutação, que ela não é estática e que pode mudar a nosso favor. Graças a Deus, até agora, meus projetos têm dado certo, têm cumprido e até superado as minhas expectativas. Quando aos novos, acredito neles, mas não posso prever o que irá acontecer.

o) Defina seu livro. Que espécie de leitor será instigado ou gostará dele? Você filosofa no contexto ou é mais descritivo?

Você se refere ao ‘120 horas’, não é? Bem, o leitor desse livro, pelo que tenho percebido, é, sobretudo, o leitor de thrillers ou de livros policiais. Muitos me escrevem fazendo comentários. A maioria gosta e muita gente já me perguntou se o livro terá uma continuação, já que o final sugere isso. Procuro não fazer muitas reflexões ao longo da narrativa, porque isso pode implicar numa perda de ritmo que, num thriller, precisa ser ágil e constante. Mas sou, sim, um pouco descritivo, pois me preocupo em situar o leitor no ambiente em que determinada cena se desenvolve e também em apresentar a condição humana dos personagens, ainda que não faça isso de forma muito aprofundada.

p) Descreva a sensação que teve quando escreveu a última oração.

Uma sensação de dever cumprido, mesclada com alegria, um pouco de alívio e também de saudades de uma trama com a qual convivi diariamente por muitos meses consecutivos. Sempre que ponho o ponto final num livro, sinto um certo vazio. Então, trato logo de começar outro.

q) Deixe uma mensagem sua, a respeito de qualquer assunto.

Precisamos fazer do Brasil um país de leitores. Eu sei que isso já virou um chavão, mas é o único caminho possível para tirar nosso país do atoleiro em que se encontra há décadas, há séculos. Nosso povo precisa de cultura, de conhecimento e se há algo que pode proporcionar isso mais facilmente e com mais eficácia são os livros, é o gosto pela leitura regular. Vejo com tristeza como muitas pessoas letradas no Brasil não se importam com essa situação, preferindo se digladiar em discussões fúteis sobre excelência literária, enquanto o povo lá fora passa fome de conhecimento. O Brasil é um país privilegiado que tem tudo, desde uma natureza privilegiada até um idioma poderoso, que foi capaz de unir um território de dimensões continentais. Com todas as adversidades, somos, hoje, a sexta economia do mundo. Imagine o colosso que esse país será no dia em que o povo tiver conhecimento e cultura? E tem gente que ainda diz que Deus não é brasileiro.

Um comentário:

andrea augusto disse...

Excelente, assim como o Luis que é um escritor de mão cheia!
Parabéns!!!

abrs
Andrea Augusto
http://www.literatus.blogspot.com