sábado, 20 de outubro de 2007

Alexandre Santos e "O Moinho", entre outros assuntos.

Alexandre Santos para mim
8 out

Clevane,

Lá vão as respostas:

Nasci e fui educado em Recife. Depois de graduar-me em engenharia civil pela UFPE, cumpri os cursos de especialização em Transportes Urbanos e Trânsito na UFCE e de mestrado em Engenharia da Produção na UFPE. Atualmente, sou mestrando em Gestão Pública para o Desenvolvimento do Nordeste.
Iniciei minha atividade profissional no Denatran, em Brasília, tendo, em seguida, me transferido para a prefeitura da cidade do Recife, onde exerci diversos cargos, inclusive a secretaria-adjunta de Transportes e Obras.
Entre algumas condecorações recebidas, a que mais me orgulha é o grau de Comendador da Ordem do Mérito Capibaribe.
Além de filiações a entidades profissionais e sindicais, como UBE (União Brasileira dos Escritores), onde exerço o cargo de presidente; CREA (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura), onde milito na Câmara de Engenharia Civil e presido as comissões de Ética e do Mérito, e Sindicato dos Engenheiros de Pernambuco, sou membro do Instituto de Estudos Políticos e Sociais da Sociedade Pernambucana de Cultura e Ensino, Instituto Solidarista de Estudos Políticos e Sociais, onde atuo como coordenador de formação política, e, finalmente, do Clube de Engenharia de Pernambuco, onde exerço o cargo de Presidente.

Sou presidente da Academia de Artes e Letras do Nordeste Brasileiro e secretário-geral da Academia Brasileira de Autores Solidaristas.

Além de engenheiro da EMLURB (Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife), sou editor-geral do informativo ‘A Voz do Escritor’, semanário da UBE, vice-presidente da Associação de Ensino Superior de Pernambuco, membro do Conselho de Política Cultural da Cidade do Recife e do Conselho Editorial da Revista Mercado S.A.


1)Desde quando sente necessidade de escrever?

Acho que desde que nasci. Sempre fui um garoto muito solitário. Minha maior diversão era a leitura. Meus maiores amigos eram os personagens das revistas de quadrinhos. Eles me 'falavam' em linguagem escrita e era com esse tipo de linguagem que eu me comunicava com eles. De vez em quando eu escrevia ao lado dos quadrinhos, mandando recados para os meus amigos desenhados.

2)Há escritores em sua família? Isso o motivou? Sofreu alguma influência?

Minha mãe dizia que meu avô, Manuel Gomes de Abreu (que não cheguei a conhecer), era poeta. Mamãe contava que, às vezes, meu avô acordava no meio da noite e, para não perder a inspiração, corria para escrever vestido da forma como estava. No ramo paterno da minha família, temos o jurista Luiz Pinto Ferreira, grande escritor, membro da Academia Pernambucana de Letras.

Não sei, no entanto, se a presença de escritores na família tenha me motivado a escrever. Acho, mesmo, que foi minha relação de amizade com os personagens das revistas de quadrinhos.

3)Possui algum momento certo para escrever, ritual ou supertição? Ou escreve sempre que chega a inspiração? É sitemático ou livre nesse exercício?

Não tenho um momento certo para escrever. Na realidade, hoje, com as minhas inúmeras atividades, escrevo sempre que tenho tempo.

4) Que livros já publicou?

Foram muitos. Incluindo os livros de política, economia, administração e literatura artística, já foram publicados 21 livros (Os retirantes, A inevitável primavera; Teoria do Valor; Economia & Poder; Solidarismo: O Brasil para todos; Subsidiariedade econômica: a opção decisiva; O desenvolvimento integrado dos campos; Em debate; O debate continua; O fim do ciclo liberal; O direito ao trabalho remunerado; A face oculta do mercado; Curso básico de Matemática Financeira; Curso básico de dministração de Materiais; Curso básico de Avaliação de Projetos de Investimento; Manual de administração de pequenas empresas; O ato de produção; O moinho (publicado em Cuba, pelo Editorial Arte y Literatura, sob o título 'El molino');O attaché; Bastidores & Camarins; e G'Dausbbah)

5) A que atribui o sucesso de "O Moinho"?

O moinho é um livro que trata da eterna luta pelo poder, pelo controle político e econômico do planeta, num quadro de globalização. Talvez a identificação das pessoas com as situações vividas no enredo, talvez a atualidade das ameaças, talvez o tema, talvez uma combinação de tudo isso expliquem o sucesso alcançado pelolivro.

Hoje 'O moinho' não me pertence. Ganhou o mundo e cada um o interpreta de um jeito. Foram argumentos distintos, tomados por pessoas que circulam em ambientes completamente diferentes, que justificaram a concessão do prêmio de melhor romance em 2007 pela Academia Pernambucana de Letras (uma casa litarária convervadora) e a publicação do livro pelo Editorial Arte y Literatura do Instituto Cubano do Livro (uma casa evidentemente progressista).

'O moinho' está aí e cada um o gira como quer.

6) O prêmio recebido o supreendeu?

Eu acho 'O moinho' muito bom. Quando leio trechos de 'O moinho' tenho a impressão de que ele foi escrito por outra pessoa. E, aí, sou tomado de uma sensação contraditória, pois, de um lado, acho que 'O moinho' tem méritos para vencer qualquer concurso literário e, de outro, acho que eu, o autor, não estou ao nível dos prêmios que o livro recebeu.


Quem versou para o espanhol?

Com o título ‘El molino’, o livro foi traduzido para o espanhol por María de los Ángeles Rezk, uma especialista em lingual portuguesa que trabalha na Universidade de Havana.


7)Você escreve poesia?

Nos últimos anos, premido pela falta de tempo, comecei a escrever poemas. Num estalo, me entregava ao instinto e deixava a pena falar por mim. Como conseqüência desta 'técnica' surgiram os poemas que compôem o livro G'Dausbbah, lançado no ano passado. O poema 'G'Dausbbah' é um épico que, numa perpectiva otimista, trata da velha luta entre o bem e o mal, envolvendo demônios, anjos e tudo o que eles representam.


Há mercado, nem Pernambuco, para a poesia?

Pernambuco, como todos os Estados do nosso querido país, vive em permanente crise. Por falta de dinheiro, as pessoas não conseguem adquirir aquilo que gostariam. Assim, sem medo de errar, afirmo que Pernamabuco é um campo fertil para a poesia e para os poetas, mas não para se vender poesia ou qualquer outro tipo de arte. Não por falta de público, mas por falta de dinheiro no bolso das pessoas.


Você considera que o nordestino, em geral é poeta, tem alma poética? E o pernambucano? A que atribui isso? Há muitos poetas na UBE/PE?

Todos nós temos em nosso interior um artista. Uns, por timidez, mantêm este artista preso, privando a sociedade da beleza que poderia estar solta, animando os ambientes em que circulam. Outros, por temperamento, o soltam. Aqui, no nordeste e, em especial, em Pernambuco, as pessoas têm mais facilidade de liberar o artista que anima a nossa alma. E, então, surgem poetas em cada esquina, em cada bar, em cada mercado. Na atualidade, assistimos, ao lado dos poetas tradicionais, o surgimento de uma nova geração de artistas, embalados por novas expressões como o chamado 'novo repente', a poesia experimental, a poesia visual e a poesia marginal, que se inspira nas diversas faces urbanas.

Embora conhecida como 'A casa do escritor', a UBE bem que poderia ser chamada 'a casa do poeta'. Temos, entre nós, muitos poetas. Poetas de todos os tipos. Dos que cantam a cidade e dos que cantam o sertão. Dos tradicionais, que seguem Bilac, e dos pós-tudo, que chegam a criar novas linguagens. A UBE é um caldeirão de literaturas e de literatos, sempre prestes a explodir e apresentar ao mundo novidades além da imaginação.


8) Qual o funcionamento da UBE/PE?

A UBE tem um funcionamento básico fincado projetos literários próprios, apoio a entidades e projetos literários externos e suporte a atividades correlatas. Entre os projetos literários próprios, destacam-se 'A ficção em Pernambuco' - projeto realizado desde novembro de 2005 em parceria com a livraria Saraiva, que consta de sessões mensais oferecidas no Espaço Manuel Bandeira, no Shopping Center Recife, em homenagem à obra de um autor pernambucano ou, excepcionalmente, de autores de outros estados nordestinos - ; 'A arte e a cultura em Pernambuco' - projeto realizado dedes março de 2006 em parceria com a livraria Cultura. Consta de sessões mensais oferecidas no auditório daquela livraria, no Shopping Paço Alfândega, em homenagem à obra de um autor pernambucano ou, excepcionalmente, de autores de outros estados nordestinos - ; 'Quarta-às-Quatro' - projeto participativo idealizado pelo poeta Vital Correia de Araújo, que, desde março de 2003, em eventos semanais abertos ao público às [como o nome insinua] 16h00 das 4ª feiras, reúne escritores de todos os gêneros literários nos jardins da UBE, em saraus abertos a todos os interessados, com temática livre. Entre as entidades e projetos literários apoiados pela UBE, se destacam o 'Café com Poesia' - projeto literário da Assembléia Legislativa de Pernambuco, que, desde março de 2007, vem tendo o apoio da UBE-PE em sessões mensais que, intercalando homenagens à obra de autores vivos e mortos, valoriza escritores pernambucanos -; e a 'Oficina de Carrero' - Oficina literária oferecida pelo acadêmico Raimundo Carrero na sede da UBE-PE desde 1996.


9)Depois do sucesso de O Moinho, tem outro livro em mente?

Sempre tenho dois ou mais livros em gestação. No momento, embora tenha dado prioridade a minha tese de mestrado (Uma abordagem da Economia de Comunhão como estratégia para o desenvolvimento local), há um romance intituldo 2020 em andamento. Espero concluí-lo no próximo ano.


É fácil conciliar sua profissão com o ofício de escrever?

Tudo é uma questão de prioridade. Trabalho e lazer. Lazer e trabalho. Procuro transformar o trabalho em lazer e vice-versa.


10)Sua esposa, como vê essa sua face de autor? Ela também escreve?

Minha mulher me deixa pensar e escrever. Administra as contas da família e tudo o mais. Não sei se conseguiria escrever se não fosse ela. Ela não escreve. Fala e, algumas vezes ,num estilo que classifiquei como 'reprimendas poéticas"


11) Quais as medidas políticas de que o Brasil precisa tomar para empoderar os escritores nacionais?

Para completar o círculo da literatura, há a necessidade do escritor ser acompanhado pelo leitor. Assim, a primeira coisa que devemos pensar num projeto de fortalecimento dos escritores é criação de uma país de leitores. Para isto, muitas providências devem ser adotadas, desde as campanhas de incentivo a leitura ao aumento radical do número de bibliotecas públicas, passando pela redução do preço dos livros, etc. Se lidos, os escritores naturalmente ganham poder. Este é um processo que deve ser acompanhado por uma série de medidas que visem, de um lado, descentralizar os núcleos de decisão (atualmente são extremamente concentrados no eixo Rio-São Paulo), e de outro estimular a criação de esquemas de distribuião dos livros.


Porque acha que a profissão de escritor e de poeta não é reconhecida, embora a de roteirista, por exemplo, o
seja (assim qual a de dramaturgo também não, embora a de ator o seja)?

Este é um dos místérios que passam ao largo da minha modesta capacidade de compreensão do mundo.

Os escritores nordestinos ou os pernambucanos têm algum plano de ação, de demanda em relação ao MINC, em prol dessa "profissão: escritor" ou pretendem continuar exercendo-a paralelamente a outra?

No momento, estamos exercendo algum tipo de pressão no sentido de democratizar a Câmara Setorial do Livro e da Leitura do MinC, que, de forma contraditória ao espírito anunciado, concentra todo o poder decisõrio do organismo na região sudeste. Entendemos que, enquanto esta questão não for resolvida, não há como resolver as demais.

Há, no Estado, algum escritor que viva apenas de escrever ou poeta, de fazer versos?

Confirmando a regra de que 'ninguém vive de literatura', existem algumas excessões. É o caso do poeta Jessier Quirino que, sendo arquiteto, prefere ganhar a vida com literatura.


Que pensa dos escritores terem um salário para poderem apenas escrever?

Esta é uma tese interessantíssima, que se enquadra no espírito da renda universal. Há, em Pernambuco, um instrumento de subsídio a personalidades e entidades culturais consideradas 'patimônio cultural vivo' que beneficia uns poucos artistas.

12) Deixe umas palavras para os leitores do blog,ou mensagem para autor nacional

Nossa responsabilidade é muito grande. Temos que fazer da nossa arte e da nossa capacidade de influenciar pessoas uma tricheira de defesa da palavra. Não podemos deixar que as palavras sejam manipuladas para atender a interesses espúrios. Não deixar que elas sejam usadas de forma irresponsável para que assumam significados diversos dos seus, de modo a confundir as pessoas em sua boa fé. A bela palavra LIBERDADE, por exemplo, que significa o oposto de cativeiro, indicando o direito das pessoas fazerem ou de não fazerem aquilo que esteja ao seu gosto, não pode ser usada em contextos limitados ou para designar a condição de pessoas cativas, acorrentadas pelas angústias da vida. Este, talvez, seja o maior desafio dos escritores.

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